Promessas de Ano Novo

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Edição 280 – 20/01/19 a 20/02/19
Canto da Crônica
Luis Pimentel – Ilustração: Amorim

Quando menos se espera

No último dia do ano, Carlão aproveitou a família reunida para fazer algumas promessas a respeito de providências que tomaria na primeira hora do dia seguinte, tão logo acordasse para viver o ano novo.

Começaria interrompendo bruscamente vícios, veleidades ou manias que, sabia muito bem e há muitas viradas, prestavam enorme desserviço à saúde – beber, fumar, comer biscoitos, comprar livros de autoajuda, torcer pelo Botafogo, essas coisas.

A família ouvia as promessas todos os anos, Carlão não cumpria nenhuma delas. Mas este ano – outra frase que se repetia – tudo seria diferente.

À medida que o vinho fazia efeito, Carlão se empolgava:
– Vou fazer caminhadas longas, prestar serviço voluntário, cuidar de animais abandonados, procurar médicos, encarar o exame de próstata.

Durante os licores – que a princípio seria só um, para acompanhar o café – resolveu radicalizar:

– Vou arrumar um emprego!

Todos os olhares, a um só tempo, grudaram no Carlão. Acompanhados de bocas abertas.

– É o quê?!

– Vou arrumar um emprego. Pagar minhas próprias despesas. Afinal de contas, está na hora, não?

Passava da hora, há muito. Mas ninguém tinha coragem de dizer. A mãe entrou no quarto, para acender uma vela a Nossa Senhora das Graças Alcançadas. O pai o encarou:

– Emprego de quê, meu filho? Você não sabe fazer nada. Carlão reagiu, ofendidíssimo:

– Pô, pai. Magoou.

Catava o abridor de vinhos, já com outra garrafa na mão, quando foi abordado por um parente:

– Passa da meia noite, Carlão. Já estamos em pleno novo ano, o ano em que você prometeu não mais beber. E o Carlão, procurando o maço de cigarros:

– Terei que adiar as promessas, primo. Sinto que ainda não há clima.