Entrevista com Jane Di Castro

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Edição 276 – 01/09/18 a 30/09/18
Fala, Vizinho!
Por Renata Moreira Lima – Fotos: Divulgação

Divina Diva

“Lutei muito por algo que deveria ser simples: ser quem sou.”

No momento em que a diversidade e a democracia se veem ameaçadas pela intenção de alguns que dão suporte ao pensamento retrógrado de cerceamento da liberdade, o Jornal Copacabana trás de volta às suas páginas um ícone do bairro. Uma Diva que conquistou o direito de ser exatamente como gostaria e seguiu na luta pela liberdade de expressão, comportamento e gênero. Conquistou no palco, telinha e telona o reconhecimento artístico através dos aplausos do público e premiações. Para esse ano, o lançamento de uma biografia dela escrita por Fábio Fabrício Fabretti e o longa metragem De Perto Ela Não é Normal, com direção de Cininha de Paula.

Conheça mais sobre Jane Di Castro na entrevista abaixo.

Renata Moreira Lima: Nasceu Luiz, cresceu Jane, passou por ditadura, abertura política, revolução sexual… e até hoje tem que lutar contra o preconceito.

Jane Di Castro: Me transformei em Jane Di Castro nos anos 70, era meu grande sonho. Sempre fiz parte do universo feminino, o masculino nunca fez a minha cabeça, eu gostava de usar batom, salto alto, vestidos… nasci trans. A gente nasce assim, não vira como os desinformados pensam, acham que é uma escolha. Essa luta eu venci, sou sobrevivente de um “tsunami”, ultrapassei barreiras, lutei muito por algo que deveria ser simples: ser quem sou. Vale a pena lutar. Queria ser uma vedete e consegui.

Renata: Todos os anos você abre a parada LGBT, cantando o hino nacional. Esse é um marco dessa luta contra a intolerância?

Jane: É sim. Fui a primeira transexual a cantar o hino em uma parada ou qualquer outro movimento LGBT. Já são 11 anos como a cantora oficial. Acho esse movimento maravilhoso, não pode acabar nunca, é uma forma de nos expressarmos. Antes não havia nada disso, tínhamos que reivindicar no palco. Temos que protestar sempre e lutar por nossos direitos enquanto cidadãos comuns.

Renata: Como se mantém essa pessoa alegre, tendo ainda que enfrentar esse tipo de adversidade?

Jane: É uma barra enfrentar o preconceito, mas essa é minha luta. Nasci assim e vou continuar assim. Muito prazer: Jane Di Castro! Sou ariana, forte, realizo as ideias que tenho na cabeça, sou positiva, sempre alegre e para cima! Acho que por isso tudo dá certo na minha vida, a positividade ajuda muito, nem gosto de ficar do lado de pessoas negativas. Há uma visão muito negativa das trans, mas quando ficamos conhecidas, o preconceito diminui, isso realmente acontece.

Sempre venci pelo meu talento, sempre no palco, sem sair da mídia. Vivo bem. Não sou 100% feliz, claro, mas o máximo possível, a vida é muito curta

Renata: Hoje você olha para trás e pensa que tudo valeu a pena?

Jane: São 52 anos de carreira de artista e 50 de cabeleireira. Hoje sou a trans mais
famosa de Copacabana e a que sobrou dos anos dourados. Trabalhei dos cabarés às casas chiques como O Drink, do Cauby Peixoto, o Beco das Garrafas, o Bacará, Little Club… Foi tudo muito rápido e glorioso!

Adoro também minha profissão de cabeleireira, sempre gostei de mexer em cabelos, desde pequena, e essa profissão sustentou muitas vezes a artista, tem momento que não estamos em cena. Tenho uma boa clientela e especialização em cortes de cabelo. Trabalho com hora marcada e preço acessível, sei como está a situação do país.

Nasci para tudo isso que está acontecendo e vai acontecer muito mais! Olho para trás e penso: valeu a pena mesmo! Faria tudo de novo!

Renata: Foi condecorada, recentemente, com a medalha Tiradentes. Essa foi mais uma vitória?

Jane: Sou a primeira no gênero a receber essa honraria maior da Alerj, uma iniciativa do deputado, meu querido Carlos Minc. Sou mesmo uma pioneira! A primeira a estrear em teatro musical, em 1966.

Feliz também porque um mês antes recebi a Medalha Chiquinha Gonzaga, pela minha música, iniciativa do vereador David Miranda. Agora tenho essas duas medalhas super importantes.

Estou sendo muito homenageada, ainda bem que é em vida! Assim dá para curtir essa alegria e emoção. (risos). Se Deus me deu esses presentes é porque mereço. E que venham outras!

Renata: Uma vencedora!

Jane: Sou muito privilegiada enquanto artista. Fui dirigida por “monstros sagrados” da cena brasileira como Bibi Ferreira, a cantora Marlene, Ney Latorraca, Berta Loran, Lennie Dale, Leandra Leal, Gustavo Gasparani, Carvalhinho, Silva Filho… foram muitos. Isso é outra coisa incrível, uma carreira coroada de êxitos, com bons textos, bons diretores… o primeiro deles foi João Roberto Kelly, em Le Girls. Quero continuar me dedicando às duas artes que amo: a de cortar cabelos, sou estilista quando se fala nisso, e ao teatro, cinema e televisão.

Renata: Ficou em cartaz por mais de 10 anos com a peça Divinas Divas, depois o sucesso internacional do filme de mesmo nome. Fale sobre esses trabalhos.

Jane: Fico muito honrada, o show Divinas Divas foi a consagração da minha carreira. De todos os espetáculos que fiz esse foi o que mais rendeu, fez mais sucesso… Foram 13 anos em cartaz. Uma ideia minha, que a Angela Leal abraçou abrindo as portas do Teatro Rival, se não fosse ela talvez não tivesse acontecido.

Leandra Leal se inspirou no espetáculo e fez o filme que é realmente um sucesso internacional, em cartaz desde 2016 e rodando o Brasil e o mundo, hoje está no Japão. Ganhamos seis prêmios com o filme, o último, recentemente, em São Paulo. Foi a glória para mim ter o show que idealizei transformado em filme pelas mãos dessa grande atriz, por quem tenho a maior admiração e carinho, que é a Leandra, uma das mais talentosas da geração dela.

Me considero parte da família Rival, fiz muitos espetáculos lá nos anos 60, quatro entre 67 e 70, foram oito ao todo. Acho que represento bem as trans, a minha família. Esses trabalhos são muito representativos também por isso. Montei muitos outros também como empresária e sempre tive boas críticas. O filme mesmo, me rendeu uma ótima crítica da Suzana Shield, do jornal O Globo, que me enalteceu pela interpretação de Edit Piaf. Foi a glória! Além dos aplausos do meu público fiel

Renata: Atuou na novela A Força do Querer com uma personagem que levantava a bandeira LGBT. Qual foi a importância desse trabalho?

Jane: Essa novela foi ótima! Fiz a Jane Di Castro. A Glória Peres me deixou mais conhecida, interpretando a mim mesma. Eu era a Diva do Nonato, meu querido Silvério Pereira.

Estou no momento em que sou mais conhecida, justamente pelo filme e a novela. Pela aparição na novela estou viajando o Brasil até hoje, é como se ainda estivesse no ar. Fiz sete capítulos e marquei muito. As pessoas gravaram meu nome e pararam de me confundir com outras artistas (risos), uma consagração. É uma grande aprovação quando o público te para na rua para te elogiar.

Renata: À que está se dedicando agora?

Jane: Acabei de fazer uma participação no documentário sobre João Roberto Kelly, o nosso Rei das Marchinhas de Carnaval! Foi muito legal!

Filmei, também, o longa De Perto Ela Não é Normal, com roteiro da Suzana Pires e direção de Cininha de Paula. Faço uma funcionária pública muito engraçada, gerente do INSS. É uma comédia muito boa, com ótimo elenco: Ivete Sangalo, Marcelo Serrado, Camila Amado, Ana Clara Gueiros, Gabi Amarantos… estou realizada.

Tenho bons trabalhos engatilhados, além dos meus shows. Viajo muito me apresentando com Passando Batom, que é do Ney Latorraca, Uma Divina Diva e Convidadas e o meu show stand up musical, onde interpreto várias divas do mundo todo. A novidade é que estou sendo biografada por Fábio Fabrício Fabretti, o livro será lançado ainda esse ano! O título é Divina Diva e lá eu conto tudo… ou quase tudo! (risos).

Renata: Vamos falar do bairro. Você é cria de Oswaldo Cruz, mas cidadã de Copacabana! Como está a vida aqui?

Jane: Nasci lá, em um bairro que adoro, de grandes compositores, bairro da minha querida Portela, mas hoje sou mais copacabanense mesmo, vivi aqui muito mais tempo, foi o meu renascimento, onde tive as minhas conquistas!

Montei meu salão na Av. N. S de Copacabana, em frente ao Copacabana Palace, sou síndica há 10 anos do prédio onde moro e os moradores não querem que eu saia, me consideram uma boa síndica, cuido dele como se fosse realmente a continuação da minha casa.

Renata: O que gostaria que mudasse com as próximas eleições?

Jane: Estou muito tensa com isso, os candidatos são muito fracos. Esse bairro é lindo, tenho paixão por isso aqui e não quero ver Copacabana em decadência. Para presidente estou muito nervosa: não voto em nazista e não gostaria que o Brasil fosse entregue a alguém que enaltece torturador, um provável ditador, homofóbico, contra as mulheres… Quando vejo que tem gay com intenção de votar em alguém assim fico decepcionada.

Gostaria que o próximo presidente fosse alguém que o povo escolhesse bem, ao mesmo tempo acho que está difícil, não vejo candidatos à altura do nosso país. Sempre as mesmas raposas velhas. Não estou entusiasmada, acho que nem o povo brasileiro está, é tanta corrupção, maldade, violência…

Temos que aprender a votar para não reclamar depois. Votaram no Crivella, agora… olha o que ele está fazendo no Rio de Janeiro.

O Brasil precisa crescer e o povo está desempregado… isso é muito triste, nunca vi tanta gente morando nas ruas. Estou bem decepcionada, vamos ver o que vai acontecer.

Renata: Deixe o seu recado aos nossos leitores.

Jane: Quero agradecer ao Jornal Copacabana que sempre me dá oportunidade de contar um pouco da minha história. Obrigada, Renatinha e Marcia. Esse Jornal é maravilhoso, tenho o maior carinho por ele. É informativo e leva muito bem o nome do bairro, além de ser dirigido por pessoas maravilhosas. Por isso é importante que todos prestigiem sempre os patrocinadores. É um jornal que vale a pena, representa o nosso bairro! Um beijo para todos vocês!

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