Entrevista com Fernanda Montenegro

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Edição 259 – 28/01/17 a 28/02/17
Fala, Vizinho!
Por Renata Moreira Lima – Fotos: Divulgação

Filha de dona de casa e pai mecânico, a adolescente Arlette Pinheiro Esteves dava aulas de português e aprendia inglês no mesmo curso, até que veio a oportunidade de fazer traduções e adaptações de peças literárias para o formato de radionovelas. Aos 15 anos já era redatora, locutora e radioatriz. Nascia Fernanda Montenegro.

A primeira peça foi em 1950: 3.200 Metros de Altitude, ao lado de Fernando Torres, que se tornou seu companheiro por toda vida.

Estreou na TV Rio em 1963, trabalhou na Tupi, TV Excelsior, Rede Record, Bandeirantes e na Rede Globo (desde a criação em 1965).

De lá para cá, uma carreira brilhante! Esteve em mais de 20 novelas, entre elas os sucessos Guerra dos Sexos (1983), Cambalacho (1986), Dono do Mundo (1991), Renascer (1994), Babilônia (2015).

Entre prêmios de importância mundial, o Emmy de melhor atriz e as indicações ao Globo de Ouro e Oscar pelo filme Central do Brasil, que a projetou internacionalmente.

É com muita honra que trago às páginas do Jornal Copacabana a entrevista comemorativa de aniversário do jornal, com a atriz Fernanda Montenegro. 

Renata Moreira Lima: Recentemente, filmou a película O Juízo, um filme de terror. Fale sobre esse retorno à telona.

Fernanda Montenegro: Filmamos no final de 2016 no interior do Rio. O roteiro é da Fernanda Torres, direção do Andrucha Waddington, e eu participo do elenco com a Carol Castro, Felipe Camargo, o rapper Criolo, Fernando Eiras, Lima Duarte e também estreia o Joaquim, meu neto que está com 17 anos. Não que ele queira ser ator, mas fez um teste, foi bem e entrou no filme. Ele, a Nanda e eu: três gerações no mesmo trabalho!

R.M.L.: É especial trabalhar em família?

F.M.: É o mais próximo do que ocorre com a família do circo e, também, é uma herança da Commedia dell’arte, na Itália – onde as famílias se uniam e tinha a de sangue e de profissão. Quando se trabalha em família você não tem solidão em um meio que não é o seu quando volta para casa.

É muito difícil para um ator, por exemplo, ter um companheiro ou companheira que não seja da mesma área. Mulher até se adapta mais, homem… Acho difícil o casamento de uma atriz perdurar com alguém que não seja da profissão, só se for alguém muito especial.

R.M.L.: Por quê?

F.M.: A nossa profissão demanda uma disponibilidade física, também na sexualidade, muitas vezes com cenas erotizadas, e até o convívio muito íntimo, compreende? Como no caso de um grupo de teatro, que muitas vezes você se entrega ao grupo e sua casa passa a ser só um local para dormir.

R.M.L.: Atuou na novela “Babilônia”, de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes e gerou grande polêmica ao beijar Nathalia Timberg, seu par romântico. Como foi o reencontro com Nathália?

F.M: Achei uma coisa maravilhosa! Um encontro com Nathalia que é uma amiga minha, uma colega de mais de 50 anos de convívio. Trabalhamos muito tempo juntas no Grande Teatro, dirigido pelo Sérgio Brito e o resultado é sempre muito integrado. Sabemos dos tempos de cada uma, conhecemos nosso temperamento no jogo cênico. Isso é muito importante.

R.M.L.: Como sentiu a receptividade do público em um país ainda tão preconceituoso e intolerante?

F.M.: Muitas pessoas me falaram: até você?! Se o público me pega como exemplo de pessoa como se eu fosse o personagem já está sendo sectário e preconceituoso.

As pessoas normalmente acham que a vida do ator/atriz é sempre misteriosamente devassa ou declaradamente devassa. Sempre tem uma desconfiança de que ali tem alguma coisa. Eu acho isso bom (risos) e faço o meu trabalho.

R.M.L.: Quando estará de volta à telinha?

F.M.: Na próxima novela do Walcyr Carrasco (logo após À Flor da Pele, de Gloria Perez), com muito orgulho de ser dirigida pelo Mauro Mendonça Filho. Ainda não tenho os detalhes, mas estou animada!

R.M.L.: Costuma se preparar fisicamente para aguentar a vida intensamente produtiva que leva?

F.M.: É sempre bom fazer uma caminhada, algum exercício: yoga, pilates… A profissão exige tanto fisicamente, a pessoa pode não aguentar, se não tiver uma disciplina na alimentação…

R.M.L.: Se considera disciplinada?

F.M.: Não sou uma pessoa “de fora para dentro”, sinto minha disciplinada internamente, compreende? E também não me privo de nada, embora possa parecer que eu me prive de tudo para ser uma atriz (risos).

Nunca fiz uma viagem organizada de forma cerebral para ganhar ou perder alguma coisa.

R.M.L.: Contracenou diversas vezes com grandes nomes da dramaturgia brasileira como Sergio Britto, Cacilda Becker, Cláudio Correa e Castro, Ítalo Rossi… Como vê a nova “safra” de atores brasileiros?

F.M.: A gente tem que dar um tempo para ver porque às vezes a pessoa começa muito bem, mas depois se perde ou a vida não colabora… Acho que a faixa de atores e atrizes da geração da Fernanda (Torres) é espetacular! Os que estão com uns 50 anos agora, resistiram e sobreviveram pelo menos durante 30 anos nesse metiê, esses honrariam qualquer palco do mundo.

R.M.L: E os mais jovens?

F.M.: A maioria hoje vem pela meio eletrônico, atuando direto na televisão, muitas vezes sem passar pelo palco. Não acho um pecado, mas são formações totalmente diferentes. Pelo palco é um processo “artesanal”: duro, difícil e lento, necessita tempo e o exercício do fazer.

No eletrônico o que conta são os resultados imediatos. Desde que aquela figura interesse àquela história/novela/série, pode ser elaborado frase por frase, se esse ator não sabe chorar, pinga uma gota no olho…

R.M.L.: Então o palco é necessário.

F.M.: O Não. Temos ótimos atores de televisão, mas precisaram resistir àquela máquina de fazer doido!

R.M.L.: Quando voltará ao teatro?

F.M.: Estou em uma série de leituras: Nelson Rodrigues por ele mesmo. Me apresentei em Manaus, São Paulo, Rio… Paro quando começar a gravar a novela, foi tempo que dava para unir os trabalhos. (risos).

R.M.L.: Tem personagens ou trabalhos que gostou mais de fazer? Algo que te dê saudade?

F.M.: Não. Tenho saudade mesmo dos meus companheiros de palco, isso sim. Profunda saudade do meu marido Cláudio Torres, de Sérgio Brito, do meu grande companheiro de cena Ítalo Rossi, de Cláudio Correia e Castro, Mario Lago, Paulo Padilha, Zilka Salaberry, Iara Amaral, muita gente.

R.M.L: Que estilo de artista é bom para contracenar?

F.M.: O que tem química e um saco incomensurável para aturar um ao outro ao longo de uma temporada em cartaz, por exemplo. O palco ensina a coexistir nos contrários.

R.M.L.: Já foi convidada para ser ministra da cultura. Qual a sua relação com a política?

F.M.: Fui convidada duas vezes, mas não tenho capacidade gerenciadora e nunca fui engajada em partido.

R.M.L.: Como vê a situação atual do Brasil?

F.M.: Muito mal. Não vejo uma saída clara para a crise, está radicalizada a força política e continuamos com as valas podres, alagamentos, sem saneamento, as favelas “não tem onde fazer coco”, não se tem saúde, educação suficiente. Não se investe de forma coordenada, histórica, em cima do processo educacional. Cada um apresenta sua fórmula nova por um ou dois anos, quando muda o governo vem uma nova ideia e a anterior é descartada. Não se fazem projetos de verdade.

Tivemos um presidente que ousou fazer um projeto assim e construiu Brasília, que hoje não cabe mais em si. Ainda foi tombada. É uma capital “fechada”, com tudo bem pequenininho, a catedral é uma capela. Em volta o povo brasileiro vivendo na periferia, a maioria na miséria.

R.M.L.: E Copacabana? Qual a sua relação com o bairro?

F.M.: Conheço Copacabana desde antes de ter o glamour. Acho com características tão vibrantemente cariocas e comunitárias…

Morei no bairro logo que casei. Minha estreia foi no teatro Copacabana… Virou um bairro muito integrado com o que veio do Centro do Rio.
Costumava frequentar quando se fazia aquele teatro de grande elenco, tudo terminava nos bares e restaurantes de Copacabana para dar um descanso mental e físico, eram muitas sessões que fazíamos. Outras características do que se vive hoje.

R.M.L.: Frequenta o bairro?

F.M.: Raramente. Trabalho tanto rodando o país que quando volto para casa é nela que quero ficar. (risos).

R.M.L.: Deixe o seu recado aos leitores do Jornal Copacabana.

F.M.: Vamos tentar sobreviver com qualquer tragédia de governo, que é o que está acontecendo. Parecemos um país invadido por uma corja absolutamente deteriorada moralmente e sem lideranças. Um grande ano para todos, com fé na sua própria vida e saúde! Parabéns ao Jornal Copacabana pelo aniversário.

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