FELIZ NATAL

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Edição 279 – 05/12/18 a 20/01/19
Canto da Crônica
Luis Pimentel – Ilustração: Amorim

Quando menos se espera

Tornou-se folclore no memorial da imprensa brasileira a história do redator que, sem inspiração para a manchete de uma edição de 25 de dezembro, tacou lá no alto da página, em letras maiúsculas e exclamação:

QUANDO MENOS SE ESPERA, CHEGA O NATAL!

Acertou em cheio. Geralmente, quando pensamos que ainda estamos no meio do ano, ela chega, provocando na gente aquela frase mais manjada do que a ideia do redator:

“Puxa! Como este ano passou depressa…

” Há quem espere o Natal fazendo contas (os comerciantes), se preparando para trabalhar pelo ano inteiro (a turma que faz bico como papai Noel) ou bebendo para esquecer (o peru da ceia); alguns torcem para que o dezembro todo passe logo, carregue com ele o janeiro e o fevereiro, venha logo março e a voltas às aulas (os pais daquele moleque que passa as férias inteiras em casa, grudado no videogame).

O certo é que, quando menos se espera, a gente sente certo prazer em abraçar aquela pessoa querida e dizer “Feliz Natal”.

E isso é o que conta.

Dia de folga

Todo dia 24 de dezembro o genro levava duas grandes bisnagas de pão de sal e uma garrafa de vinho adocicado. Na sacola de papel pardo estavam também uma peça de bacalhau, danado de ossudo, e umas castanhas que a mãe botava logo para cozinhar.

O menino ia até a venda do bairro comprar óleo, manteiga, ovos, canela e açúcar, e à noite os pães já tinham virado rabanadas. O bacalhau passava a noite dentro de uma bacia com água. Pela manhã era separado dos ossos e da pele. A mãe caprichava no ensopado com leite de coco, tomate, batata e coentro à vontade.

Aí sentavam-se à mesa – costume que não era do dia-a-dia. Os adultos bebiam vinho, os meninos bebiam K-suco, o bacalhau engolido com arroz fresco e farinha de mesa parecia a terceira coisa melhor do mundo; a segunda era a rabanada com café quentinho logo depois e a primeira era que naquele dia a mãe não tinha que sair para o trabalho, era dia de folga, mesmo que não fosse domingo.

A menina queria porque queria a boneca que tinha cabelos de milho e revirava os olhinhos.

Diante da vitrine da loja, na manhã do 24 de dezembro, o pai contava os trocados. Um olho nos olhos ansiosos da filha, outro nos olhos sedutores da boneca.

Feita a conta, o pai perguntou à vendedora se poderia parcelar. A moça respondeu que não.

O pai perguntou se a menina ficava triste. A filha não respondeu nada. Ele quis saber se poderia adiar a compra para o final do mês. A vendedora disse que no fim do mês talvez a boneca já tivesse sido vendida.

O pai coçou os olhos de angústia, secou uma lágrima triste. A menina deu um abraço bem apertado no pai, sorriu com os olhos de amor e disse:

– Não importa. Essa boneca nem é tão bonita assim.

Para não perder a viagem

Chegaram em casa com a informação de que o caminhão da Ação Social estava parado na praça, carroceria carregada de brinquedos, farta distribuição de presentes para os necessitados.

O menino largou o time de botão espalhado sobre a mesa, recolheu camiseta e sandálias e partiu na carreira. O moço da Prefeitura disse que bolas de futebol, de couro ou de plástico, não havia mais. Nem carrinhos de madeira ou controle remoto, nem livros ou velocípedes, bonés do Batman, insígnia de comandante, nada.

– Agora, só tem bonecas que choram e fazem xixi.

– Me dê. Vou levar para minha irmã.

O menino não tinha irmã para dar a boneca que chora e faz xixi. Mas não ia perder a viagem.

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