Música brasileira: notas e tretas antigas

0
96

Edição 278 – 05/11/18 a 05/12/18
Canto da Crônica
Luis Pimentel – Ilustração: Amorim
Tópicos do livro Sons da palavra – causos, crônicas e pérolas da MPB, no prelo da Editora Outras Letras

Vigarismo

“Comprar música é subjetivo. Desde o começo da música, sempre existiram os “comprousitores” e os compositores que vendem canções. Comprei muitas e vendi outras tantas. A malandragem nunca existiu para mim. Sou um bípede mamífero que sempre trabalhou. Se um vigarista soubesse quanto é gostoso estar do lado da lei, se tornaria honesto só por vigarismo”.

(Moreira da Silva, o Kid Morengueira, em 1990, em depoimento para o Museu do Carnaval)

Ainda o comércio de autorias

“Paulo da Portela acreditava pateticamente que os sambistas das escolas obteriam o respeito da sociedade por fazer simplesmente sua música, além de calçar sapatos e vestir terno e gravata. Mas, a contradizê-lo, estavam à espreita Benedito Lacerda, Chico Alves, Ari Monteiro e ainda outros, para comprar por preço de ocasião o direito de autoria. Ismael Silva, Wilson Batista, Geraldo Pereira, Heitor dos Prazeres, e tantos outros, passavam suas criações em comércio regular. Ocorria uma desapropriação dos direitos de criação na canção brasileira, da mesma forma que se dava, também, em simetria com a economia nacional, um processo de mais valia acentuada. Havia os redutos onde se praticava esse negócio com certa regularidade, como o Nice ou o Café Tália”.

(Relato de Orlando de Barros no livro Custódio Mesquita – um compositor romântico no tempo de Vargas, 1930-45, Eduerj, 2002)

O Paulo da Portela citado, que acreditava “pateticamente” na dignidade dos sambistas brasileiros, é o compositor Paulo Benjamim de Oliveira, um dos fundadores da Portela e figura importantíssima na formação cultural e política dos criadores ligados aos blocos e às escolas. Paulo nasceu em 1901, no Rio de Janeiro, cidade onde morreu em 1949, poucos dias antes do carnaval.

Rixa de bambas

“Eu sou o rei do samba”. (Sinhô) “Sinhô é o rei dos meus sambas”. (Heitor dos Prazeres) “Ora, Heitor, deixa disso. Samba é como passarinho, meu caro. É de quem pegar primeiro”. (Sinhô)

(Não se sabe quando o diálogo ocorreu e nem mesmo se ocorreu realmente. Mas faz parte do folclore da música brasileira)

Sem aviso prévio

“Quero pedir o aplauso de vocês para estes músicos maravilhosos, que estão tocando hoje comigo pela última vez”.

(Elis Regina, para a plateia de seu show, demitindo,em cena aberta, toda a banda que a acompanhava. Relato de Joyce, em Fotografei você na minha Rolleyflex. Multimais Editorial, 1997)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here