O velho Jogador

0
31

Edição 274 – 01/07/18 a 31/07/18
Canto da Crônica
Luis Pimentel – Ilustração: Amorim

Dia de decisão do campeonato brasileiro. Jogavam Bahia X Internacional, em Porto Alegre, e a televisão mostrava para todo o Brasil. O Esporte Clube Bahia entrou em campo contando com a vantagem do empate, pois vencera a primeira partida, em Salvador.

O jogo ficou em zero a zero, e o time baiano ergueu o troféu de campeão brasileiro, três décadas depois de ter conquistado a primeira Taça Brasil, decidindo contra o Santos no Maracanã.

O velho jogador, craque da equipe campeã de 1959, vê o jogo no quarto de pensão do interior. Toma mais uma dose de cachaça, para comemorar, e se prepara para dormir. Dia seguinte é segunda-feira e ele precisa estar às oito horas no campinho quase sem grama, dirigindo um coletivo da equipe juvenil do time da cidade.

O homem que foi campeão baiano e brasileiro em 1959, artilheiro nas duas temporadas, está bêbado. Mas consegue impulsionar as pernas e o tronco no salto, acertando uma cabeçada com estilo na única lâmpada pendurada no teto do quarto. E grita:– Gol do Bahia!

O cruzamento saiu da esquerda, certinho, e foi parar no peito de Bobô. Bola escorregando pela barriga, amortecida na coxa e rolando oferecida até a perna direita do apoiador do Bahia. O chute de primeira e a explosão no poste direito, sem que o goleiro Tafarel tivesse tempo sequer de acompanhar a trajetória. Mais dois centímetros para dentro e adeus.

Diante da televisão, o velho jogador acompanha atentamente a jogada. Amortece o pensamento na coxa e também emenda de primeira, em cima do lance. O pé rompe o vento e acerta a perna da mesa. Cai no chão do quarto, gemendo.

Bobô deu um soco no ar, irritado. O velho jogador soltou um palavrão.

O velho jogador descobre que não tem mais uma gota de álcool em casa e sai à procura. Encontra um amigo no bar da esquina, onde toma uma dose e pede uma garrafa para viagem. O amigo também viu Bahia x Internacional e diz que Bobô lembra muito o velho jogador, nos bons tempos.

– Só que um gol daqueles, da entrada da área, você não perdia de jeito nenhum, cracão. Podia contar que era bola na rede.

Faz o caminho de volta com a garrafa debaixo do braço. No quarto de pensão toma um gole e começa a remexer na caixa de sapatos cheia de fotografias antigas, onde ele aparece ao lado de parentes, torcedores, jogadores, com a ex-mulher e com os filhos que já não sabe onde andam. Vê também alguns recortes de jornais, com o noticiário do dia seguinte à histórica decisão. Sua fotografia no alto da primeira página, ao lado dos companheiros, na comemoração do gol da vitória.

O velho jogador decide que vai à festa dos novos campeões e desembarca na Estação Rodoviária de Salvador, na manhã alegre. A cidade vestida de azul, vermelho e branco, as cores do Bahia.

Todas as manchetes convocam os torcedores para a grande recepção aos campeões brasileiros. O time chega por volta das onze horas, tempo suficiente para tomar um café com pão no bar da estação e pegar o ônibus para o aeroporto, onde trios elétricos esquentavam os instrumentos desde as primeiras horas. Os jogadores chegaram e foram conduzidos em carro aberto que iria percorrer a cidade. Atrás do carro, torcedores e os trios elétricos. A intenção era correr as ruas de Salvador, o quanto aguentassem.

Quem cansava ia ficando pelas esquinas, mas o velho jogador prometeu a si mesmo que vagaria o dia inteiro, e até a noite, pelos becos, ladeiras, ruas e avenidas da capital baiana.

O acidente foi rápido. Na descida de uma ladeira o trio elétrico desgovernou-se e despencou, ladeira abaixo, atropelando quem estava na frente. Foi esbarrar num poste, alguns metros adiante, o que evitou uma tragédia maior. Vários torcedores ficaram feridos, alguns gravemente, e foram socorridos nos hospitais.

Os jornais publicaram a lista de acidentados no dia seguinte e também fizeram referência ao único morto: um homem de pouco mais de cinquenta anos de idade, que não estava identificado e vestia uma surrada camisa do Bahia.

O velho jogador nem pensou em pegar documentos ao deixar a pequena cidade. Para quê? Tinha a esperança de ser reconhecido por todos como um cracaço do passado.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here