126 anos de Copacabana

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Edição 274 – 01/07/18 a 31/07/18

O bairro nasce
com a chegada do bonde

O aniversário do bairro neste mês de julho é um bom pretexto para se conhecer a primitiva história da aventura que garantiu para o Rio de Janeiro o primeiro bairro praiano da cidade.

Desde 12 de março de 1856, quando, pelo decreto nº 1733 se conferiu a primeira linha de carris urbanos puxados a burros ao Conselheiro Cândido Baptista (1801/1865) e seu filho Luiz Plínio*, ninguém podia imaginar a revolução que tais veículos acarretariam à cidade.

A linha de Cochrane, partindo do centro para a Tijuca, começou a funcionar em 1859, mudando para tração à vapor em 1862. Não deu certo por causa da má conservação. Já Cândido Baptista desinteressou-se de sua concessão, haja vista que em 11 de outubro de 1859 ele foi indicado presidente do Banco do Brasil, repassando a concessão por 40 contos de réis (pelo decreto nº 2927, de 21 de maio de 1862) ao amigo, banqueiro Irineu Evangelista de Souza, Barão e Visconde de Mauá (1813-1889). Mauá, receoso com o investimento, pelo que aconteceu à linha Tijuca, cedeu a concessão por 100 contos de réis (formalizada pelo decreto nº 3738, de 21 de novembro de 1866) ao engenheiro americano Charles B. Greenough (1825-1880), que partiu para os Estados Unidos onde conseguiu verbas para a linha que percorreria a Zona Sul da Cidade, organizando uma companhia dois anos depois.

Logo eram assentados os trilhos do Centro ao Catete e, em 9 de outubro de 1868, começou a funcionar a “Botanical Garden Rail Road Company”, com sua primeira linha da rua Gonçalves Dias até o Largo do Machado.

O impacto sobre a cidade logo se fez sentir. Regiões que ficavam desertas, por falta de acesso logo se valorizaram e foram ocupadas. Bairros como Botafogo, dominados por extensas chácaras, logo foram repovoadas. Não se vendia mais terreno algum na cidade sem antes o comprador fazer a pergunta: – o bonde passa lá?

Em 1 de janeiro de 1871 chegava, finalmente, ao Jardim Botânico e Gávea, tornando tais arrabaldes muito populares desde então. Em 1 de abril de 1873 o bonde já atingia “Olaria”, hoje “Campus da PUC” (Rua Marques de São Vicente), e outro ramal, do Largo do Machado à “Bica da Rainha”, no Cosme Velho.

Se vislumbrou na mente de homens progressistas que o bonde era a maneira mais eficiente de se chegar à Copacabana, Ipanema e Leblon.

Entretanto, o primeiro transporte coletivo que chegou às praias da Zona Sul não foram os bondes, e sim as diligências do Dr. Francisco Bento Alexandre de Figueiredo Magalhães (181?-1898), médico cirurgião formado em Lisboa, cujos serviços foram iniciados a 1 de dezembro de 1878. Partiam diligências da Praia de Botafogo (canto da Rua São Clemente) em direção à Praia de Copacabana pela ladeira do Leme***.

A primeira tentativa de levar uma linha de bondes até a Praia de Copacabana data de 1874, quando a 4 de setembro foi concedido ao Sr. Alexandre Vieira de Carvalho, o Conde de Lages, Mordomo dos Príncipes Conde e Condessa D’Eu, e ao sócio dele Dr. Francisco Teixeira de Magalhães, a necessária autorização para sua construção, uso e gozo, durante 50 anos, de uma linha de carris para Copacabana. A “Empresa Ferro Carril Copacabana”, cujo principal dono era o alemão Alexandre Wagner, que adquirira a concessão dos herdeiro do Conde de Lages chegou a ser fundada. Wagner estava comprando todos os terrenos disponíveis em Copacabana, do Leme até a “Pedra do Inhangá”. A obra foi iniciada, mas muito combatida na justiça pela “Botanical Garden”, caducando a concessão rival a 21 de fevereiro de 1880.

No ano seguinte, a 13 de julho, o Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas colocou em concorrência pública a abertura de uma linha de carris urbanos para Copacabana. A “Jardim Botânico” protestou, alegando privilégio de área, sugerindo em vez rediscutir seu contrato original e realizar a linha, mas o Governo fez “ouvidos de mercador“ e a concorrência um projeto foi realizada. A coisa não foi adiante, tendo todas as concessões caducadas.

Em 5 de outubro de 1882, um grupo de vereadores apresentou à Ilma. Câmara Municipal um projeto de extensão das linhas de bondes da “Companhia Ferro Carril Jardim Botânico” (nome que tomou a “Botanical Garden”, após sua nacionalização em 1883), de Botafogo, para os bairros de Copacabana, Vila Ipanema e Leblon. A coisa não saiu de imediato.****
Ainda em 1886, por sua vez, a “Companhia” propôs ao Ministro da Agricultura, Comércio e

Obras Públicas, uma linha de bondes para Copacabana, o que se comprometeu por contrato assinado já na República, a 30 de agosto de 1890 com o dito ministério. Somente dois anos depois, em maio de 1892, é que pode ser escavado o túnel.
Finalmente, a 6 de julho de 1892, depois de oito meses de obras, sendo dois de escavações na rocha, o Gerente da “Jardim Botânico”, o engenheiro pernambucano José Cupertino Coelho Cintra (1843-1939) inaugurou o “Túnel Velho” (hoje Alaor Prata), ligando a rua Vila Rica, em Botafogo ao areal de Copacabana. *****

A inauguração deste pequeno túnel, de pouco mais de 200 metros, é considerado pelos historiadores a certidão de nascimento de Copacabana.

 


 

* E a segunda, de uma linha para a Tijuca, dada dias depois pelo decreto nº 1742, de 29 de março, ao médico homeopata escocês Thomás Cochrane (1805-1872), sogro de José de Alencar (1829-1877)

** Faliu em 1865, dando prejuízo de 700 contos a seus diretores.

*** O Dr. Magalhães montara em Copacabana uma casa de saúde para convalescentes, com cômodos para banhistas e hotel anexo. As diligências trafegavam de hora em hora, das 7h às 10h, da manhã e das 17h às 20h.

**** Outros planos e concessão como o apresentado a Governo Imperial em 1883, era o de Duvivier & Cia. Seus autores eram Theodoro Duvivier (1848-1924) e Otto Simon, genros de Alexandre Wagner, vieram e caducaram. Um dos planos mais interessantes foi o que propôs a 10 de fevereiro de 1886 o engenheiro João Dantas ao Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, de uma ferrovia à vapor que, partindo de Botafogo, da estação da Companhia Jardim Botânico, no Largo dos Leões, chegaria por um túnel à Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca, Mangaratiba, Sepetiba indo até Angra dos Reis, numa extensão de 193km. Foi constituída em 1890ª “Companhia Estrada de Ferro Sapucaí”, que pretendia, dentre outras obras, fazer um prado de corridas de cavalos no Leblon, nas terras da chácara do português José de Guimarães Seixas, colado ao Morro Dois Irmãos. O decreto nº 587, de 10 de outubro de 1891, emitido pelo Governo Federal, autorizou a mesma empresa a estender os trilhos até Guaratiba.

Em 1891 essa concessão caducou, quando já se havia escavado uma estrada de quase um quilômetro pela encosta do Morro Dois Irmãos, estrada esta que depois de muito ampliada em outubro de 1916, seria inaugurada como Av. Niemeyer.
Em fevereiro de 1886, a “Companhia Jardim Botânico” fez uma contraproposta ao “Plano Dantas, sugerindo uma linha ferroviária à vapor cortando Copacabana, Ipanema e Leblon, saindo da estação do Largo dos Leões, em Botafogo e indo até “Pena”, em Jacarepaguá. Propunha também um prado de corridas no “Morro Dois Irmãos”. Em vez de um prado de corridas no Leblon, o engenheiro André Rebouças sugeriu um cemitério naquelas plagas, ideia logo enterrada. Igualmente não foi adiante.

***** Na ocasião, o Barão de Ipanema arrendou terras para a construção de uma estação onde hoje é a Av. N. S. de Copacabana.

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